Tenho o mar atravessado em minhas costas e uma bola de fogo na cabeça. O mesmo fogo de que é feito o chão da terra. Minha língua é de barro vermelho e molhado. Nascida em dezembro, sou eu meu cavalo.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
A PAZ
É preciso atenção; vaziez não é paz.
Paz é cheia de muita sensação.
Paz é velha. Tem muita memória e é uma doçura! Vocês nem imaginam como gosta de acontecer nas miudezas. Tipo quando alguém diz: "Finalmente tive um dia de paz!". Ela respira aliviada e segue buscando jeitos de diminuir as angústias.
Dia desses fui visitá-la. Estava com um nó na garganta, sem dormir direito, pedi que me desse um conselho, alento, remédio, que aliviasse aquela agonia. Depois que lhe contei minha história, se embrenhou por baús imensos e demorou mais de hora. Quando voltou, toda empoeirada, e apenas me disse: "- Respire." Fiquei revoltada!
(Maíra Guedes)
- Mas dona Paz! De novo isso? Me mandar respirar?
Ela, com toda paciência, seguiu:
- Sua questão parecia difícil, mas foi só o jeito que você perguntou... é muita coisa na cabeça de sua velha. Fui buscar a solução, remexi memória, hábito, sentimento. Já me cansava as costas quando a Lembrança de Respirar me olhou e disse: "Sou eu de novo não é?" É isso minha filha... eu sei que parece bobagem, mas acredite na sua velha: lembre-se de respirar. Dessa vez tente pelo diafragma, certo? Faça uma vez aí pre'u vê se você sabe.
(Maíra Guedes)
27.01.2020
quinta-feira, 4 de abril de 2019
SEMPRE ME VI GRANDE
sempre me vi grande
mesmo criança eu era grande
não tenho memória de me
achar pequena
a dominação patriarcal racista
hoje capitalista,
começou a me fazer pequena,
da ação dos homens conheci o medo.
coisa completamente oposta ao meu jeito expansivo de viver
desde que berrei em Itabuna - Ba, perto do meio dia,
em dezembro de 1986.
a violência me diminuiu por anos
e ainda tenta me deixar pequena,
mas sou imensa...
não venha querer cravar em minha pele o que não é meu.
vivo num corpo-memória que se permitiu adormecer e nascer.
fui parida pelo vento
feita de raio e movimento
"medo não me alcança"*
vá pra longe com sua palavra mal.dita,
com seus golpes de faca, pau, ácido, correntes, revólver, pontapés, murros e tesouras,
com seu olhos nojentos me vendo coisa pornográfica, propriedade do seu desejo.
sempre me vi grande
mesmo criança eu era grande
não tenho memória de me achar pequena.
(Maíra Guedes)
- 04 de abril de 2019
- alterações em 12 de marco de 2021
* verso de Carta de Amor, música
* verso de Carta de Amor, música
/texto de Maria Bethânia.
domingo, 31 de março de 2019
sábado, 23 de março de 2019
dicionário 3
término
dever
devir.
dever
devir.
entendi despir.
ela: despedir.
...
negação
memória não é carcaça
mergulho não é naufrágio
destruir amor
...
negação
memória não é carcaça
mergulho não é naufrágio
destruir amor
não é arte de poeta
...
desejo
pólvora molhada
secando ao sol
mas é nublado
o dia
...
desejo
pólvora molhada
secando ao sol
mas é nublado
o dia
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